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NACIONAL 03/03/2026 20:20:53

Avanços e desafios marcam a presença feminina no mercado de trabalho brasileiro


Para advogada, maior qualificação das mulheres não eliminou desigualdades salariais, entre outros problemas

No dia 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher, o debate sobre igualdade de gênero no trabalho ganha ainda mais relevância. Mesmo com avanços expressivos nas últimas décadas, as mulheres ainda enfrentam desigualdade salarial, dificuldades para alcançar cargos de liderança e o peso da dupla jornada no mercado de trabalho brasileiro. Especialistas apontam que, apesar da maior qualificação e da presença crescente em áreas antes dominadas por homens, fatores estruturais e culturais continuam limitando a plena equidade nas relações profissionais. É o que analisa a advogada trabalhista e empresarial Andreza Molinário, que destaca tanto as conquistas recentes quanto os desafios persistentes para a igualdade no país.

A professora do curso de Direito da Estácio avalia que a presença feminina no mercado de trabalho brasileiro avançou de forma significativa nas últimas décadas, mas ainda convive com entraves estruturais. “A situação da mulher no mercado de trabalho já avançou significativamente. As mulheres estão mais qualificadas e atuando em funções que já foram apenas masculinas. Também aumentou a participação de mulheres em cargos estratégicos e como empreendedoras”, avalia.

Apesar disso, persistem os obstáculos históricos. “Ainda há problemas estruturais. O homem continua representando a figura de provedor familiar e sua ascensão no mercado de trabalho é mais facilitada. As mulheres ainda encontram barreiras de ascensão a cargos de liderança e, conforme o quarto Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, apresentado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2025, as mulheres recebiam, em média, 21,2% menos que os homens. Além disso, as mulheres ainda enfrentam dupla jornada, sendo as responsáveis pela organização do lar, criação e educação dos filhos”, explica.

Entre os avanços mais relevantes dos últimos anos, a professora da Estácio destaca a ampliação da presença feminina em atividades antes exclusivas dos homens — como condução de transporte público, operação de máquinas pesadas, serviço militar e construção civil — além do crescimento da escolaridade e da participação no ensino superior. Outro ponto é o avanço legal, como a possibilidade de esterilização feminina sem autorização do cônjuge e políticas públicas voltadas à permanência no trabalho, como o Programa Emprega + Mulheres, que ampliou mecanismos de prevenção ao assédio e tornou o tema obrigatório nas ações da CIPA, hoje denominada Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio.

Desigualdade salarial é um dos principais desafios

A profissional destaca que, mesmo com alguns avanços, a desigualdade salarial permanece como um dos principais desafios, especialmente no setor privado e em posições de liderança. “A desigualdade salarial ainda é uma triste realidade no Brasil e é mais evidente em cargos de gestão e liderança, no setor privado. Também é possível verificar essa desigualdade em funções técnicas, onde a aptidão e a força física masculina são mais valorizadas. Em contrapartida, áreas com remuneração padronizada tendem a apresentar maior equilíbrio: as funções operacionais e o serviço público tendem a não ter desigualdades salariais, devido à padronização salarial imposta por pisos salariais obrigatórios”, salienta Andreza.

Para a advogada, diversos fatores explicam a diferença de remuneração mesmo quando a qualificação é equivalente. A maternidade e as interrupções de carreira ainda impactam negativamente na progressão profissional feminina. “As mulheres interrompem mais as suas carreiras para a construção da família. Ela é penalizada indiretamente pela maternidade e pela necessidade de maior atenção aos filhos nos primeiros anos de vida”, observa. Historicamente, como acrescenta Andreza, as mulheres concentraram-se em funções com menor remuneração e podem ser menos agressivas em negociações salariais. Outro elemento decisivo é a falta de transparência nas empresas, que dificultam a identificação e correção das distorções.

Igualdade garantida por lei

No campo jurídico, a advogada afirma que o país possui base legal suficiente para garantir igualdade, embora a aplicação prática ainda seja falha. Ela cita a Constituição Federal, que assegura igualdade de direitos e proíbe diferenças salariais por motivo de sexo, bem como a CLT, cujo artigo 461 determina salário igual para trabalho de igual valor. Há ainda a Lei 14.611/2023, que reforça a igualdade salarial e obriga empresas com mais de 100 empregados a enviarem informações remuneratórias para relatórios semestrais de transparência.

“A legislação brasileira mostra-se suficiente para garantir a igualdade salarial, mas a efetividade dessa legislação é outro tema a ser evidenciado. Verifica-se a necessidade de mudança de crenças e atitudes que moldam como se interpretam desafios e decisões. A efetivação de medidas que visem a igualdade de salários deveria fazer parte das práticas e normas empresariais que garantem o cumprimento das leis”, afirma.

Ações para o combate à desigualdade salarial

Quanto às ações concretas das empresas, a advogada defende políticas estruturadas e transparentes, como planos claros de cargos e salários, critérios objetivos de avaliação, programas de retorno após a licença-maternidade — incluindo flexibilização de jornada e trabalho remoto —, práticas de compliance trabalhista, capacitação das lideranças e transparência nos critérios de remuneração e promoção.

“Apesar dos progressos, a desigualdade de gênero no trabalho ainda reflete raízes profundas da sociedade. Trata-se de um fenômeno estrutural e cultural ligado historicamente à objetificação feminina, o que explica porque, mesmo com avanços legais e educacionais, o tema continua presente no debate público e nas estatísticas do mercado de trabalho brasileiro”, finaliza a professora da Estácio.
 

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