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SAÚDE 28/03/2026 21:16:54

Abril Azul: a importância do debate sobre desafios enfrentados por adultos com TEA


A campanha Abril Azul reforça a conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e contribui para ampliar o debate sobre inclusão e direitos. Ao longo dos anos, boa parte das discussões tem se concentrado no diagnóstico precoce e no acompanhamento na infância, fase em que geralmente surgem os primeiros sinais. No entanto, o autismo acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida, e a realidade de adultos no espectro, que envolve diagnóstico tardio, desafios de inserção no mercado de trabalho e acesso a políticas públicas, ainda permanece menos explorada.

De acordo com a psicóloga e docente do curso de Psicologia da Estácio, Simone Chandler Frichembruder, a representação social do autismo permanece fortemente associada à infância, muitas vezes vinculada a estereótipos ou à ideia de genialidade. Segundo ela, apesar de avanços recentes, o investimento em pesquisas e na formação de profissionais ainda está majoritariamente concentrado nas fases iniciais da vida.

Nesse sentido, um marco citado pela profissional é a sanção da Lei 15.256/2025, que prevê incentivo à investigação diagnóstica do TEA em adultos e idosos. “Essa Lei é fundamental, pois busca reparar uma dívida histórica e passa a atender um público que chega à vida adulta ou velhice sem ter recebido o diagnóstico formal e, por sua vez, sem acesso aos direitos e políticas públicas voltadas a eles”, aponta. 

Ao tratar da autonomia, a psicóloga ressalta que o diagnóstico de autismo não define, por si só, as capacidades do indivíduo. Ainda assim, ela observa que pessoas consideradas socialmente diferentes costumam ser colocadas no lugar da incapacidade. “Um dos grandes desafios é o olhar que reduz a pessoa autista à condição de incapaz”, pontua.

No que se refere ao mercado de trabalho, Simone menciona dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, que indicam que 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de autismo e a estimativa é de que 85% deles estejam fora do mercado de trabalho. “Isso é um dado preocupante, pois até a sanção da lei, essas pessoas também estavam sem acesso às políticas públicas, o que as colocam em uma situação de vulnerabilidade”, pondera. 

Para a professora, as barreiras começam na trajetória educacional. Informações do Censo Demográfico 2022 mostram que 46,2% das pessoas com autismo não concluíram o ensino fundamental, percentual superior ao registrado na população em geral (35,2%). “Uma diferença que expõe as barreiras persistentes no acesso e na permanência escolar ao longo da vida”, salienta.

Nos processos seletivos, segundo Simone, critérios excessivamente centrados na comunicação verbal e em habilidades sociais padronizadas podem desconsiderar competências técnicas e potenciais específicos. Quando conquistam uma vaga, surge outro problema: ambientes pouco adaptados, com sobrecarga sensorial e exigência constante de socialização.

Conforme a especialista, esse cenário está inserido em um contexto mais amplo de preconceito estrutural, no qual as pessoas com TEA são tratadas como incapazes, independentemente de suas habilidades. A exclusão pode se manifestar de forma sutil, como na ausência de solicitação para tarefas simples ou na desconsideração permanente de suas competências.

Para a psicóloga, ampliar o debate significa reconhecer que o autismo atravessa todas as fases da vida e que a inclusão não se limita ao diagnóstico ou à garantia formal de direitos, mas envolve condições reais de participação social, educacional e profissional ao longo do tempo. “Pensar no futuro dessas pessoas, garantir que envelheçam com dignidade e apoio, é mais do que um ato de conscientização: é um dever de toda a sociedade”, conclui.
 

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