Uso da cúrcuma em suplementos exige cautela e avaliação individual, alerta nutr
A popularização da cúrcuma como “alimento funcional” e o aumento da oferta de cápsulas com extrato concentrado de curcumina têm ampliado o debate sobre segurança e benefícios da substância. Embora associada a propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, o uso indiscriminado, especialmente na forma de suplementos, pode trazer riscos, sobretudo ao fígado.
O alerta é da nutricionista Juliana Gonçalves, coordenadora do curso de Nutrição da Estácio, que reforça a importância da avaliação individual antes de qualquer recomendação. Segundo ela, que também atua como fitoterapeuta, o primeiro ponto é compreender que não existe uma indicação universal. “Antes de qualquer coisa, precisamos entender que cada indivíduo é único. Por isso, é extremamente importante avaliar a individualidade de cada pessoa para prescrever qualquer tipo de planta, seja na forma de extrato ou na alimentação”, explica.
A principal diferença entre a cúrcuma usada na culinária e a versão em cápsulas está na concentração e na absorção do composto ativo, a curcumina. Nos suplementos, tecnologias específicas aumentam significativamente a biodisponibilidade, o que potencializa tanto os efeitos esperados quanto a possibilidade de reações adversas. Mesmo na alimentação, porém, a substância não está totalmente livre de riscos, especialmente quando consumida em grandes quantidades ou associada a outras substâncias.
Evidências recentes indicam que o uso de suplementos de cúrcuma pode estar associado à elevação de enzimas hepáticas, hepatite medicamentosa e lesão hepática aguda. Casos são considerados raros, mas potencialmente graves. Diante desses relatos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre danos hepáticos associados ao uso de suplementos contendo extrato concentrado de curcumina, reforçando a necessidade de farmacovigilância.
O risco pode ser ainda maior quando a curcumina é associada à piperina, substância presente na pimenta-preta e frequentemente incluída em fórmulas comerciais. Essa combinação aumenta a absorção da curcumina em até 20 vezes, o que pode levar à maior concentração sistêmica, sobrecarga hepática e interações medicamentosas.
Alguns grupos exigem atenção redobrada, como pessoas com doença hepática prévia, usuários de medicamentos hepatotóxicos, indivíduos em polifarmácia, gestantes, lactantes e crianças, além de pessoas com predisposição genética à lesão hepática. Também devem ter cautela aqueles que utilizam múltiplos fitoterápicos simultaneamente.
Entre os sinais de alerta para possíveis efeitos adversos estão icterícia (pele e olhos amarelados), urina escura, fezes claras, náuseas, vômitos, dor abdominal no lado direito e fadiga intensa. Alterações laboratoriais como aumento de ALT, AST e bilirrubina podem aparecer antes mesmo dos sintomas.
A especialista também chama atenção para a falsa sensação de segurança associada ao termo “natural”. “A cúrcuma continua sendo um alimento funcional com potencial benefício, mas não se recomenda o uso em forma de suplemento sem orientação profissional. O problema não é a planta, e sim a forma de uso, a dose e o tempo”, afirma.