PLANO URBANÍSTICO AMBIENTAL PARA A REGIÃO DAS ILHAS: COMO CONVIVER COM O RISCO DE MANE
_Fonte Correio do Povo_
Projeto que está sendo desenvolvido para o bairro Arquipélago, com pesquisadores da Universidade de Delft, busca compreender o riscos climáticos da região e promover estratégias de mitigação e adaptação para a ocupação do solo
Há dois anos, a Região das Ilhas, historicamente ocupada por comunidades que cresceram em uma área de banhado e já haviam vivenciado muitos alagamentos, passou pela maior cheia que a região já viveu. No bairro Arquipélago, em Porto Alegre, a água atingiu a cota de 5,35 metros. Entre junho e julho de 2025, as regiões passaram novamente por alagamentos, forçando moradores a saírem de suas casas recém recuperadas – ou ainda em reconstrução.
Por se tratar de uma Área de Preservação Permanente (APP), não é possível implementar modificações físicas como obras de engenharia, diques, muros ou comportas na região, como tem sido visto em outras áreas de Porto Alegre e municípios do Estado. O que é possível, nessas condições, é entender como os moradores que historicamente ocupam aqueles lugares – muitos deles uma vida inteira – podem conviver com as águas sem sofrer riscos.
É isso que pesquisadores da Universidade Técnica de Delft (TU Delft), da Holanda, estão fazendo, dentro do contexto do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD): a elaboração de um ordenamento definindo diretrizes urbanísticas e ambientais para desenvolver o regime urbanístico específico para a região das ilhas da Pintada, Grande dos Marinheiros, das Flores, do Pavão e Mauá.
O projeto está sendo capitaneado pela pesquisadora Taneha Bacchin. Ela explica que o plano prevê, primeiramente, um diagnóstico aprofundado para as ilhas, envolvendo questões ambientais, socioeconômicas e infraestruturais. Ainda, compreende a análise de risco para eventos climáticos extremos no contexto das ilhas de Porto Alegre, considerando o risco hidrodinâmico. A partir do diagnóstico e da análise de risco, o plano é desenvolvido com propostas e estratégias de mitigação e adaptação climática para a ocupação segura do solo.
Por que construir um plano para as ilhas
A região das Ilhas é gerenciada e ordenada a partir de um plano de manejo, dentro do contexto do Parque do Delta do Jacuí, junto com o governo do Estado a partir da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), como área de proteção permanente. Junto disso, há uma condição de risco hidrodinâmico em uma área habitada historicamente por muitas comunidades.
"O plano traz essa mediação entre a integração ecológica, a regeneração, a conservação ambiental das ilhas, a gestão do risco hidrodinâmico e, principalmente, a permancência dessa população", explica Taneha. Em linhas gerais, o plano quer planejar como conviver com risco nas ilhas de maneira segura.
O projeto tem uma dimensão emergencial para a gestão da contingência, com diretrizes de evacuação, ponto de resgate e toda a gestão no momento de crise. A pesquisadora ressalta que esse plano não envolve a remoção de nenhum morador, mas sim o remanejamento a locais considerados mais seguros.
Metodologia
O projeto começou em fevereiro de 2025 e será concluído em agosto deste ano. Desenvolvido ao longo de 18 meses, é composto por oito produtos, com uma assessoria técnico-científica para a prefeitura de Porto Alegre, dentro do contexto do PNUD, em contratação junto à Universidade Técnica de Delft.
Atualmente, o desenvolvimento está no produto 5, que seria a elaboração do plano em si, com a ocupação das ilhas em conjunto com uma série de estratégias de infraestrutura, habitação, mobilidade, abastecimento de água, drenagem, saneamento, eletricidade, entre outros itens. Foi feita a análise de risco das ilhas, onde foi detectado o risco primordial hidrodinâmico.
"Identificamos duas áreas que podem ser consolidadas, que são as áreas com menor risco e com uma presença de infraestrutura já existente, que também proporciona essa consolidação, na Ilha da Pintada e no braço Sul da Ilha Grande dos Marinheiros”, explica Taneha.
Risco hidrodinâmico
O risco hidrodinâmico apontado envolve, principalmente, o risco das condições fluviais. Considerando que o Delta do Jacuí é desaguado por quatro rios, a velocidade da água é elevada em dias de chuva extremos. Isso gera uma passagem do rio com alto volume, inundando as ilhas com mais força. O projeto busca avançar na previsão do risco, composto pela vulnerabilidade, exposição e perigo.
O diagnóstico também foi elaborado com a participação da população, com a organização de reuniões e oficinas. "O diagnóstico também foi baseado justamente nisso, nas histórias da população mais antiga das ilhas em um estudo etnográfico que foi sendo desenvolvido", diz a pesquisadora.
Próximos passos
Na sequência, o plano deverá detalhar as intervenções prioritárias a curto, médio e longo prazo, com uma visão de infraestrutura crítica, convivência segura com as águas e no contexto de um plano emergencial. De forma geral, apontar quais são as áreas de risco, como fazer a evacuação das ilhas, quais são os pontos de resgate nas áreas consolidadas para um acesso seguro. Ainda, apontar melhorias para a mobilidade urbana e a requalificação ambiental a partir das chamadas soluções baseadas na natureza como médio prazo. Entre os planos de ocupação, estão a utilização do segundo pavimento das casas, considerando o contexto de banhado.
Esse documento também envolve o chamado plano de transição para as áreas expostas a riscos, de maneira que haja um desincentivo à ocupação dessas áreas. "Novas ocupações não podem acontecer", acrescenta a pesquisadora. O modelo é desenhado diante da incerteza, por isso, o plano não pode ser fixo. "Na realidade, o que a gente está desenvolvendo é, justamente, um plano de transição. É um plano que responde as dinâmicas do território, não só as dinâmicas de ocupação atual", complementa.
No seu contexto de decisão, a prefeitura de Porto Alegre deverá ter instrumentos de monitoramento para adaptar o plano, se necessário, no futuro, considerando que o risco evolui. O plano trabalha com os princípios de adaptação climática e de resiliência evolutiva.