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NOTÍCIAS 07/12/2021 18:21:29

Recém-casadas: conheça a história de Gabriela Fraga e Priscila Daitx

​​​​​​​Sede Velha celebra o amor LGBTQIA+ e cumpre dívida cármica

Gabriela Fraga e Priscila Daitx casaram-se na Sede Velha, em novembro último. Foto: MUTI Produtora de Eventos/ Divulgação

No dia 14 de novembro, a Sede Velha foi palco de um evento que marcou a celebração do amor e a conclamação do respeito à diversidade: o casamento de Gabriela Fraga e Priscila Daitx. Foi em campo aberto na fazenda, debaixo de um pé centenário de figueira e um musical com violino sob a luz do sol poente, que as noivas uniram os buquês e sagraram o matrimônio com um “sim”. Na presença de familiares, padrinhos e demais convidados, a cerimônia simbólica foi celebrada pelo comunicador da rádio Sede Velha, Ari Santos Filho.

Casadas no civil no dia 16 julho de 2021, Priscila, de 28 anos, empresária, e Gabriela, 30, assessora parlamentar do deputado federal Marlon Santos, são residentes de Parobé, na Serra Gaúcha, mas escolheram a propriedade rural localizada em Encruzilhada do Sul – distante cerca de 240 quilômetros, a quase três horas e meia de viagem – que é morada de Marlon (padrinho do casal) –, como cenário de um dos momentos mais marcantes e emocionantes de sua história.  

Leia também: Casamento homoafetivo deve bater recorde em 2021.

“Em uma conversa com Marlon, falamos que estávamos pensando em casar, e que tínhamos gostado muito da Sede Velha. De imediato, ele nos ofereceu o espaço, e disse: ‘Pode ser mês que vem?’. Então, concordamos: ‘Calma, é muito cedo’ (risos de nervoso). Marcamos a data e, daí em diante, começamos a organizar tudo – e ficou incrível, que dia mágico!”, contam elas, que moram juntas há um ano.

REENCONTRO APÓS UMA DÉCADA

Gabriela e Priscila se conheceram nos tempos de escola, mas só foram se aproximar depois de mais de uma década. “Eu lembro da Priscila desde essa época (cerca de 13 anos atrás), e ela já chamava a minha atenção, mas ela não lembra de mim”, diz, aos risos.

“Em 2019, eu olhando meu Facebook, nas sugestões de amizade, encontrei a Pri e mandei um convite. Após uns três dias, ela me aceitou e enviou um recado no Messenger, pensando que eu tinha adicionado ela para saber sobre os produtos que ela vende [emplacamento de veículos]. Mero engano. Depois disso, trocamos o número de WhatsApp, e a conversa rendeu”, detalha Gabriela que, na época, trabalhava em Porto Alegre, retornando à Parobé aos finais de semana.

“A Priscila foi bem resistente de início. Ela não queria me conhecer pessoalmente, pois eu tinha saído de um relacionamento recente, e dizia que estava muito cedo para isso. Até que, depois de um mês de muita conversa e risadas, nosso encontro saiu”, recorda-se.

Quando se deram conta, as escovas de dentes já tinham se unido. “Comecei a levar, discretamente, algumas coisas da Pri para casa e, quando ela viu, já estava tudo lá praticamente”, conclui Gabriela. “Sempre nos demos muito bem. Uma ajuda a outra em tudo”.

O AMOR ENTRE MULHERES

No primeiro encontro, elas tiveram a certeza de ter encontrado o grande amor de suas vidas. “Quando eu a vi, e toquei nela, senti meu corpo todo arrepiar e minhas mãos suavam frio. Naquele momento, olhando nos olhos dela, eu sentia que era ela a resposta das minhas orações. E ela diz ter sentido o mesmo”, derrete-se Gabriela. “Podemos dizer que somos o encontro de duas almas. Pois é um amor muito forte que sentimos desde o início”, completa.

Gabriela Fraga e Priscila Daitx: união celebrada em belo cenário no campo. Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação

O PROCESSO DE ACEITAÇÃO E A VIVÊNCIA DA PRÓPRIA SEXUALIDADE

Ainda na infância, aos 10 anos de idade, Gabriela Fraga diz já ter sentido que não gostava de meninos, identificando-se como mulher lésbica aos 23 anos. “Eu me aceitava, mas sempre tive muito medo de me assumir por medo do que iriam falar e de como iriam reagir”, desabafa.

Já Priscila, a descoberta de sua orientação sexual começa na adolescência e, para ela, também não foi um processo fácil. “Demorei para entender e aceitar o sentimento pelo mesmo sexo. Comecei a perceber que eu me sentia atraída por mulheres aos 16 anos, mas só me assumi aos 22”, conta ela. “No início, eu não me aceitava, mas depois que eu me resolvi e entendi que não tinha nada de errado. E não tive problemas com o que pudessem vir a falar de mim”.

VENCENDO O PRECONCEITO

Apesar dos amores, nem tudo são flores. O preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ é uma realidade recorrente no Brasil, onde o mesmo foi criminalizado pelo STF desde junho de 2019. Para Gabriela e Priscila, essa situação não é diferente.

“No início, nunca percebemos preconceito – acho que estávamos ocupadas demais se conhecendo e nos amando. Para chegarmos até aqui, tivemos que enfrentar alguns obstáculos”, dizem elas, que afirmam ter sido sempre bem acolhidas e respeitadas no ambiente de trabalho, mas, dentro da família, nem sempre foi assim.

“A maioria da família nos respeita, mas já ouvimos piadas homofóbicas, as quais deixaram todos naquele momento constrangidos. Tentamos agir da melhor maneira possível, que é ignorando, e depois tomamos a decisão como ocorre na maioria das vezes, que é a de nos afastar de quem não nos respeita e não contribui para isso, com risadas ou algo do tipo”.

“Infelizmente, fomos vítimas de más línguas, fofocas e intrigas de pessoas que, por algum motivo, não queriam nos ver juntas. Mas, como nosso amor é verdadeiro, conseguimos superar e nos reinventar como casal”, compartilham. “Somos parceiras para tudo, confiamos uma na outra e sabemos que o sentimento entre nós é recíproco”, orgulham-se elas.

O FIM DE UM CARMA

Em um discurso direcionado ao público presente, Marlon Santos refletiu sobre a importância do direito à liberdade sexual e da união homoafetiva. Ainda destacou o respeito à diversidade, refletiu sobre a chaga da discriminação e da intolerância e revelou o significado espiritual por trás deste momento.

Nas palavras do deputado federal e médium, a Sede Velha tem um histórico trágico de morte e suicídio provocados pelo preconceito racial e sexual – citando os casos de uma mulher negra que foi morta por engravidar do dono daquelas terras na época da escravidão, e de um músico gay que cometeu suicídio no local.

Portanto, Marlon destacou que o casamento de Gabriela Fraga e de Priscila Daitx representava mais que um ato político e de resistência, mas a finalização de uma era cármica.

Na doutrina Espírita, o carma justifica a lei de “causa e efeito”, isto é, ações resultantes de um passado que oportunizam a possibilidade de uma mudança, por meio de aprendizado e superação com ações positivas no momento presente.

FICHA TÉCNICA

O casamento de Gabriela Fraga e Priscila Daitx teve decoração de Collaço Locações, de Sapucaia do Sul (RS) e iluminação do DJ Edo Hitter. Apresentações musicais de Ellen Caroline, cantora de Parobé, e de Douglas Mendes, violinista de Encruzilhada do Sul. Na maquiagem, Naty Voguel, transformista parobeense e madrinha do casal. Cobertura fotográfica e filmagem de Fernando Luis, de Igrejinha, e da MUTI Produtora de Eventos, de Cachoeira do Sul.

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